Ficha de Leitura
Documento de trabalho
dos serviços da comissão Escolas para o século XXI
COMISSÃO DAS
COMUNIDADES EUROPEIAS
Bruxelas, 11.07.2007 SEC(2007)1009
O Conselho Europeu tem sublinhado a
importância da educação e da formação para a competitividade a longo prazo da
União Europeia, assim como para a coesão social.
No relatório mais recente, (2006/2007),
insta a um maior investimento no capital humano, através do desenvolvimento de
melhores competências.
Reconhece a importância crescente da
aprendizagem ao longo da vida. Sublinha problemas específicos, como a
persistência do abandono escolar precoce e argumenta que os sistemas de ensino
potenciam frequentemente as desigualdades já existentes, acrescentando que as
reformas deveriam ser mais exaustivas, baseadas num planeamento político a
longo prazo e numa «cultura da avaliação».
Os
desafios que enfrentam os sistemas de ensino são relativos à eficiência e
equidade nos sistemas de educação e formação.
Trata-se de assegurar que os sistemas
sejam simultaneamente eficientes a produzir elevados níveis de excelência e
equitativos a elevar o nível geral de competências.
Alguns dos desafios mais importantes e
cruciais para o bem-estar dos indivíduos e para o bem da sociedade, dizem
respeito à qualidade da educação e da formação iniciais, começando na
aprendizagem precoce e na educação pré-escolar.
A escola é um local onde a maioria dos
europeus passa pelo menos nove ou dez anos de vida. É aqui que adquirem os
principais conhecimentos e competências, assim como as regras, as atitudes e os
valores fundamentais que os norteiam ao longo da vida. Ao complementar o
papel-chave desempenhado pelos pais, a escola pode ajudar o indivíduo a
desenvolver os seus talentos e a realizar o seu potencial de crescimento (em termos
emocionais e intelectuais) e de bem-estar pessoal.
Se o objetivo é preparar as pessoas para
a vida moderna, a escola deve encaminhá-las para um percurso de aprendizagem ao
longo da vida.
Uma educação escolar sólida lança
igualmente as bases de uma sociedade aberta e democrática, formando as pessoas
para a cidadania, a solidariedade e a democracia participativa.
A questão das competências é vital.
Quase um terço da força laboral europeia tem baixas competências.
As escolas defrontam-se com dificuldades
para captar o interesse dos jovens para as principais disciplinas, as ciências
e a matemática, cruciais para a competitividade europeia.
EVOLUÇÃO E DESAFIOS
Competências-chave para todos
A escolaridade de massas começou a estar
disponível numa era em que se podia prever com razoável segurança quais eram os
conhecimentos e as competências de que os alunos teriam necessidade durante a
sua vida adulta.
Os jovens já não podem esperar passar
toda a vida num único sector laboral, ou até no mesmo sítio; o seu percurso
profissional modificar-se-á de maneira imprevisível e precisarão de contar com
um leque mais vasto de competências genéricas que lhes permitam adaptar-se. Num
mundo de crescente complexidade, a
criatividade, a capacidade de pensar lateralmente, as competências transversais
e a adaptabilidade tendem a ser mais valorizadas do que um conjunto
específico de conhecimentos.
Quadro
de referência da União para os estados membros
adaptarem os seus programas:
- As competências essenciais referem-se
ao conhecimento, a competências e a atitudes que servem o desenvolvimento
pessoal, a inclusão social e uma cidadania ativa, bem como a empregabilidade.
Incluem-se competências «tradicionais», como a
comunicação na língua materna e em línguas estrangeiras, competências básicas
em matemática e ciências e a competência digital, mas igualmente competências
mais transversais como aprender a aprender, competências sociais e cívicas,
espírito de iniciativa e espírito empresarial e sensibilidade e expressão
culturais.
O quadro europeu permite aos estados
membros a redefinição dos programas de ensino de modo a que, em vez de enumerar
conteúdos, especifiquem resultados (as competências e atitudes que se espera
tenham os alunos. Quatro das oito competências essenciais nele definidas são de
natureza transversal.
Preparar os europeus para a aprendizagem
ao longo da vida
O êxito de um indivíduo na sociedade do
conhecimento e da economia da aprendizagem vai requerer a capacidade de
continuar a aprender de diferentes maneiras durante toda a vida, bem como uma
adaptação rápida e eficaz a situações em mudança.
Questiona-se se os alunos mais velhos
desenvolveram competências suficientes para serem autónomos, de saber se o
ensino poderia ou deveria tornar-se numa atividade mais centrada no aprendente,
na qual aprendente e professor constroem mútua e ativamente conhecimentos e
competências. As tecnologias da informação e da comunicação, por exemplo, têm
um enorme potencial para apoiar a aprendizagem autónoma, a construção de
conhecimentos em colaboração e o desenvolvimento de competências.
Contribuir para o crescimento económico
sustentável
A necessidade de dotar os jovens das
competências essenciais necessárias e de melhorar o nível de instrução é parte
nuclear das estratégias da União Europeia para o crescimento e o emprego, assim
como para o desenvolvimento sustentável subjazendo aos objetivos explicitados
nos programas nacionais.
A procura de competências é bipolar: o
rápido progresso tecnológico requer competências de elevado nível e em
constante atualização, enquanto a
internacionalização crescente e os novos
modos de organização das empresas solicitam competências sociais, comunicativas,
empresariais e culturais que ajudem as pessoas a adaptar-se a ambientes em
mutação.
Melhorar o sucesso escolar é importante
para o indivíduo, porque aquilo que as pessoas conseguem alcançar na
escolaridade obrigatória tem um impacto direto muito forte nas suas realizações
educativas posteriores, assim como no seu salário. Também é importante para a
sociedade, uma vez que o aumento do sucesso está fortemente ligado ao
crescimento económico. Um aumento no nível global de sucesso dos alunos das
escolas europeias melhorará a competitividade e o crescimento económico da
União.
Reagir aos desafios que se colocam às
nossas sociedades
Um recente documento de consulta sobre a
realidade social da Europa assinala que as políticas de educação e formação
podem ter um impacto positivo em termos de resultados sociais e económicos, mas
que as desigualdades na educação e na formação têm custos elevados, ainda que
ocultos.
As escolas não podem por si só, resolver
problemas sociais de âmbito mais generalizado. A investigação demonstra que as
iniciativas políticas isoladas no domínio da educação só lograrão, suprimir
barreiras à inclusão, e isto de modo limitado, se forem articuladas com
programas de reforma mais generalizados a nível económico e social, que liguem
a educação e a formação a ações noutros domínios políticos. Contudo, a escola,
ao ser central nas vidas de pais e filhos, enfrenta atualmente numerosos
desafios.
As populações escolares refletem padrões
de migração.
A presença, numa comunidade escolar, de
alunos e pais com contextos culturais e linguísticos variados pode ser uma
fonte fértil em oportunidades de aprendizagem e a escola pode funcionar como um
ambiente seguro em que as pessoas com diferentes antecedentes podem aprender
umas com as outras.
Lidar eficazmente como uma diversidade
cultural cada vez maior nas salas de aula não deixa, contudo, de representar um
desafio para alguns Estados-Membros.
Os estudantes imigrantes são, na sua
maioria, aprendentes motivados e com atitudes positivas perante a escola;
contudo, vários países da União Europeia preocupam-se pelo facto de os
estudantes oriundos de meios imigrantes terem um desempenho significativamente
inferior ao dos estudantes sem essas origens. Em geral, os alunos com origem em
minorias podem estar sujeitos a tratamentos menos favoráveis do que o resto da
população e podem sofrer variadas desigualdades em termos do acesso e dos
benefícios relacionados com a educação.
As crianças pobres têm menos
probabilidades do que as outras crianças de serem bem-sucedidas na escola,
ficar fora do sistema penal, gozar de boa saúde e integrar o mercado de
trabalho e a sociedade.». A pobreza afeta o seu desenvolvimento cognitivo e, o
seu desempenho académico. Em geral, é mais provável que os jovens criados num
ambiente socioeconómico menos favorável, abandonem a escola mais cedo.
O abandono escolar precoce é um problema
significativo em vários Estados-Membros. Os progressos rumo ao objetivo da
União de reduzir o abandono escolar precoce para 10% em 2010 são lentos e o
Conselho Europeu sublinhou que os esforços envidados têm de ser intensificados.
As práticas educacionais e as condições
sociais também interagem. Há provas de que a segregação das crianças em escolas
separadas feita com base nas suas competências antes de fazerem treze anos
(«tracking» acompanhamento) exacerba as diferenças de níveis de instrução
imputáveis ao meio social, conduzindo, assim, a resultados ainda mais díspares
obtidos por alunos e escolas.
Uma escola para todos
Existe uma tendência na Europa no
sentido de educar todos os alunos (independente-mente das suas necessidades) em
turmas do ensino geral. O número de aprendentes em escolas «especiais» com
segregação completa tem decrescido, à medida que estas se transformam em
centros de recurso que apoiam o trabalho das escolas do ensino geral. De acordo
com especialistas, o ensino integrado constitui uma importante fundação que
assegura a igualdade de oportunidades às pessoas com necessidades especiais em
todos os aspetos das suas vidas; trata-se de um ensino que requer sistemas
flexíveis e que respondam às necessidades diversas e frequentemente complexas
de cada aprendente.
As práticas em sala de aula que apoiam a
inclusão de alunos com necessidades «especiais» incluem: ensino cooperativo,
aprendizagem cooperativa, resolução de problemas em colaboração, grupos
heterogéneos e vigilância, análise, planeamento e avaliação sistemáticos do
trabalho de cada aluno. Estas abordagens deverão beneficiar todos os alunos,
incluindo as crianças particularmente dotadas ou talentosas.
As medidas para incluir as crianças com
necessidades educativas especiais podem, por conseguinte, ser vistas como uma
extensão do princípio de que a escola é construída em torno das necessidades
especiais de cada criança. Apesar destas tendências, em alguns
Estados-Membros, a insatisfação com o
tipo de ensino público levou a que um pequeno número de pais tenha decidido
educar os filhos em casa.
Preparar os jovens europeus para uma
cidadania ativa
Um aumento da participação dos jovens na
democracia representativa constitui um dos principais desafios com que a
sociedade europeia se defronta. A existência de elos eficazes entre as escolas
e o resto do mundo foram reconhecidos como vitais tendo em vista a preparação
dos estudantes para o momento em que ocuparão o seu lugar na sociedade. Através
da escola, a sociedade ajuda a preparar os jovens para a vida na comunidade e a
serem cidadãos responsáveis e ativos, além de poder dar aos jovens uma ideia do
que é ser um cidadão europeu responsável no âmbito de uma sociedade
democrática.
Para promover a cultura da democracia
nas escolas, envolvendo os alunos, os pais e os professores é necessário
demonstrar que a democracia não é um jogo para adultos e feito por eles,
requerendo um processo de aprendizagem ao longo da vida que pressupõe tanto que
os cidadãos adultos do futuro sejam alimentados pela democracia, como que a
tenham praticado ao seu próprio nível. A democracia nas escolas também tem
justificação pragmática: é uma maneira eficaz de criar um clima de confiança e
responsabilidade nas escolas.
Todavia, tendências como o aumento da
violência, do radicalismo ou do fundamentalismo na sociedade e, bem assim, as
expressões do racismo, da xenofobia, da homofobia e do sexismo, também se
refletem, inevitavelmente, nas comunidades escolares. O assédio moral é um
problema que vários Estados-Membros identificaram como uma prioridade de ação.
Os professores – agentes cruciais da
mudança
Os professores são os mediadores entre o
mundo em constante evolução e os alunos que estão prestes a integrá-lo.
Cada vez se exige mais dos professores:
trabalham com grupos de alunos mais heterogéneos; exige-se que utilizem as
oportunidades proporcionadas pelas novas tecnologias, que respondam às
exigências de aprendizagem individualizada e que ajudem os alunos a tornarem-se
aprendentes autónomos ao longo da vida. É igualmente provável que também tenham
de tomar decisões ou executar tarefas de gestão decorrentes de um aumento da
autonomia das escolas.
Além disso, existem ambientes de desafio
em muitas escolas.
Os professores sofrem de stress e
de doenças relacionadas com stress. Levantam-se, portanto, questões
acerca das condições de trabalho e do apoio a dar aos profissionais do ensino.
Muitos Estados-Membros têm dificuldades
em manter na profissão os professores experientes. É necessário substituir a
experiência perdida mas é também uma oportunidade para investir na formação
inicial de uma nova vaga de professores e melhorar as competências dos
professores em atividade.
Ajudar as comunidades escolares a
desenvolver-se
Os executivos /diretores das escolas
desempenham um papel vital na sua gestão e liderança. Há, na Europa, uma
variedade de modelos de gestão escolar. Alguns sistemas dão grande importância
aos «líderes escolares» (ou equipas de líderes), capazes de imprimir ritmo e
rumo à mudança, facilitar a transparência da comunicação, estimular o
pensamento e a inovação criativos, motivar pessoal e alunos, conduzindo-os a
elevados níveis de desempenho, e acabando por exemplificar o espírito da
aprendizagem ao longo da vida. Noutros sistemas, o papel do líder escolar não
existe.
O debate público refere-se cada vez mais
à conveniência de as escolas trabalharem em parceria com outras entidades e
organizações. Variam os processos no sentido de assegurar que as escolas
respondem perante as comunidades que servem. Em alguns países, pais e outras
partes interessadas fazem-se representar junto de organismos responsáveis com
grandes poderes a nível da política de contratação do pessoal, das finanças e
do espírito da escola, bem como relativamente aos programas de ensino; noutros,
todos estes poderes são centralizados.
A utilização alargada das instalações
escolares para atividades pós-escolares, ou enquanto recurso educacional
disponível para toda a comunidade (como os centros locais de aprendizagem) pode
ajudar a promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida.
Os sistemas de avaliação e inspeção
podem contribuir com feedback importante para explorar as realizações e
satisfazer as necessidades em mudança numa escola. O Parlamento Europeu e o Conselho
recomendaram, em 2001, que os Estados-Membros estabelecessem sistemas
transparentes de avaliação da qualidade, encorajando-os a criar um quadro
equilibrado de autoavaliação da escola e de quaisquer avaliações externas, a
envolver todas as partes interessadas no processo de avaliação e a divulgar as
boas práticas e as lições aprendidas.
Apesar disso, pais, alunos e outros
interessados são envolvidos com menos frequência na avaliação do que os
professores e os conselhos diretivos. Uma questão-chave é saber até que ponto a
análise e a avaliação do desempenho de uma escola pode ter em conta o perfil
socioeconómico e educacional dos alunos, sublinhando dessa forma o valor
acrescentado da mesma.
Existe uma variação considerável em toda
a Europa, na medida em que as escolas dispõem de autonomia para estabelecer os
seus objetivos, compor os seus programas, selecionar e remunerar o seu pessoal,
bem como para aplicar quaisquer mudanças que as avaliações possam demonstrar
ser necessárias.
Conclusão
Parece lógico concluir que a instituição
escolar não pode permanecer estática, se quiser servir de fundação para uma
aprendizagem ao longo de vida e se pretender contribuir plenamente para a
prosperidade social e económica dos Estados- Membros.
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